O Virtual e o Dasein: uma perspectiva contemporânea

O Virtual e o Dasein: uma perspectiva contemporânea

Essa pequena investigação está condicionada por uma leitura restrita ao “primeiro” Heidegger, foi apenas esse advento tecnológico do virtual como um exemplo e chamada para que os leitores atentem à produção deste pensador, que mesmo desprovido das chancelas que a internet nos proporciona hoje, tem cabedal para falar à sociedade atual e revelar um alerta sobre como estamos sendo amarrados àquilo que nós mesmos produzimos.

Com a chegada da tecnologia no mundo contemporâneo e o desenvolvimento de novas técnicas, desde a revolução industrial e o pós-guerra, a produção é colocada em escala jamais vista. Logo, nunca se produziu a tamanha velocidade quebrando as linhas da imaginação. Por outro lado, a virtualização, como um segundo passo dessa própria revolução tecnológica, é mostrada como pilar de uma nova realidade. Uma vez que, esse passo rompe com as fronteiras do real e, consequentemente, modifica as formas de fazer, agir e comunicar.

O filósofo Martin Heidegger, revoluciona a filosofia ao apresentar o Ser-ai, isto é, o Dasein como base da possibilidade de ter e fazer compreensão de todas as ciências, visto que é lançado no mundo e, dessa forma, busca compreender através da sua vida cotidiana a si mesmo, na medida em que se relaciona com os entes, Nesse sentido, a relação entre a virtualização e o Dasein tem como ponto de partida o ser-à-mão, a saber, é a partir de sua ocupação com o “mundo”. Haja vista, que a tecnologia virtual é colocada como instrumento de uso. Logo, é a maneira pela qual o Dasein compreende a forma de estar nesse horizonte virtual, por conseguinte, dando sentido.

Pierre Lévy aponta o virtual como uma das maneiras de ser no mundo, ou seja, para ele o ente carrega e produz virtualidade ao mesmo tempo que o constitui como parte essencial de sua determinação, desse modo, a virtualidade não é imaginária e nem desrealizante, pelo contrário, como uma “elevação a potência” a virtualização amplia as possibilidades ontológicas do ente, “fluidifica as distinções instituídas, aumenta os graus de liberdade, cria um vazio motor” e “redefine a atualidade como resposta a uma questão particular”. 

Apesar de Lévy se basear nos conceitos da tradição de essência e existência postulado por Aristóteles, o qual Heidegger critica severamente, percebe-se que não se afasta daquilo apresentado pelo próprio Heidegger em Ser e Tempo quando utiliza das expressões de lugar ‘aqui’, ‘lá’ e ‘aí’ pois não tem significação categorial ou indicam puramente advérbios de lugar, mas são determinações-do-Dasein e possuem de modo primário significação de existência. Portanto, pode-se considerar que por mais que o virtual não pertença a um lugar ou esteja “presente” em um espaço fixo, não o impede de existir, sendo assim, o virtual participa na produção de sentidos do Dasein ao lhe proporcionar uma extensividade de ser no mundo.

Como discutido anteriormente, sabe-se que a virtualização faz parte do horizonte de sentidos do Dasein, já crescemos em contato com o que a tecnologia proporciona e simplificam as demandas da nossa cotidianidade, transformando a nossa forma de pensar, produzir, negociar e não apenas isso, rompe com as barreiras de espaço geográfico e a temporalidade de tal modo que é capaz de armazenar dados em nuvens, arquivar, copiar, desmembrar, recompor, construir, além da velocidade dos diversos canais e meios que facilitam a comunicação, sendo estes os coletivos virtuais que estruturam a realidade social com mais força.

Dentre os meios de comunicação que o ciberespaço oferece e se fazem atuais na cotidianidade do Dasein é interessante pensar se as relações do ser-um-com-o-outro se sustentam dentro das mídias sociais, visto que com o avanço das tecnologias de comunicação, alguns conceitos tradicionais dos processos sociais estão sendo resignificados. Castells aponta que a informação e a tecnologia transformou o tempo e o espaço modificando os formatos tradicionais de indústria, comercio, educação, segurança e até mesmo serviços de saúde, de tal modo, o próprio conceito de comunidade vem sendo discutido pois nossas formas de se relacionar com o outro e em grupos extrapolam o campo de territorialidade, o exemplo disso são as redes sociais populares, jogos onlines, sites de namoro, etc. 

Dasein com outro Dasein

Sabe-se que o Dasein se expressa em seu dia a dia e está sempre em contato com outros entes, dessa forma, Heidegger aponta três modos do Ser-aí, apresentados como um todo estrutural ontológico, a saber, a compreensão anti predicativa (ser-à-mão);  a apreensão teórica dos entes (ser-simplesmente-dado) e a relação de preocupação com outro Dasein (ser-como-o-outro) e é sobre este terceiro modi que nos interessa discutir dentro do ciberespaço.

A preocupação é o modo como o Dasein percebe outro Dasein, isto é, ser-com-o-outro, pois diferente da relação do Dasein com outros entes, ele não se ocupa, o caráter de ocupar-se instrumentaliza o convívio com o outro Dasein.  O ser-com é essencialmente ser em função do outro e se mostra na estrutura da sua mundidade em sua ocupação a partir do ser-a mão enquanto compreensão. 

Heidegger afirma que: “ser um para o outro, ser um contra o outro, prescindir um do outro, passar um ao lado do outro, não se importar em nada com o outro são modos possíveis da preocupação-com” (HEIDEGGER, p.353), estes são modos de convivência tidos como indiferentes ou deficientes, nesse sentido proposto por Heidegger a preocupação com o outro é deixá-lo ser ele mesmo, é o que qualifica em seu cuidado e não retira da sua própria cotidianidade, mesmo que o outro Dasein queira se colocar em uma possível solidão ao ser-só e isso afirma sua existência no mundo. Há também dois modos extremos de preocupação-com de convivência cotidiana, a saber, a substuitiva-dominadora que retira do outro a preocupação ou “cuidado” para depois se retirar totalmente dela, entretanto nesse convívio o outro poderá estabelecer uma relação de dominado ou dependente; o segundo modo é a antecipativa-liberatória, cuja qual não substitui e nem retira a preocupação ou “cuidado”, mas ajuda o outro a “obter sua preocupação e a se tornar livre para ela”.

Relações Virtuais e o Dasein

Percebe-se que nada impede de que a relação Dasein de preocupação-com se estabeleça na virtualidade, ou seja, podem se constituir em modos de convivência indiferente, substitutiva-dominadora ou antecipativa-liberatória, e isso depende dos sentidos que o próprio dasein dá as experiências proporcionadas pela virtualidade. Com efeito, é possível criar, manter laços sociais e transpor essas relações para além do convívio online.  Entretanto, vale ressaltar a crítica que Heidegger faz sobre o desenvolvimento da técnica quando o próprio homem se coisifica e coisifica suas relações, quando este passa a utilizar desse meio virtual apenas como objeto de uso e se coloca nessa posição objetificante. Em contrapartida Lévy pensa se essa forma de dominação objetificante não estaria ligada a própria qualidade das relações humanas.

Dentro dessas perspectivas nos cabe perguntar se com o advento das tecnologias de comunicação a preocupação deste ser-com-o-outro se perde no meio virtual a ponto de tomá-lo como fundo de reserva e utilizá-lo apenas como objeto de uso? Será que a coisificação das relações já não era presente antes do desenvolvimento e dominação da técnica e da virtualização das relações? Ou será que dentro deste novo contexto virtual as relações não estão se reinventando, bem como as nossas próprias formas de ser no mundo?

  Não sabemos a resposta, nem tampouco a entendemos completamente, pois estamos inseridos nesse cenário contemporâneo que recria-se constantemente e como Dasein somos [co]participantes, isto é, lançado no mundo, e ainda que paulatinamente, estamos caminhando a fim de enxergar suas implicações nos processos sociais. Devemos portanto, acompanhar e dar sentido ao invés de excluí-la, compreendê-la em nossa mediana cotidianidade e ao mesmo tempo apreendê-la ampliando as reflexões com novos estudos.

Referências:

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Trad. Roneide Venancio Majer. 6ª ed. Editora: Paz e Terra, 2002.

HEIDEGGER, Martin. Carta  Sobre o  Humanismo.  Tradução  de Emmanuel  Carneiro Leão. 2ª ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967.

__________. A questão da técnica.  In: Ensaios e conferências.  Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvam Fogel e Márcia de Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2002.

__________. Ser e Tempo. Trad. Fausto Castilho, Campinas: Unicamp; Petrópolis:Vozes, 2012.

LÉVY, Pierre. O que é virtual? Trad. Paulo Neves. 8ª ed. Editora: 34, São Paulo, 2007.

 

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Anna Carolina Cutrim
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